Mania chata essa de paulista em colocar esse maldito “do” na frente da nossa gloriosa Belém.
Acredito que a culpa é daquele bairro deles, o Belenzinho, assim mesmo com N e diminutivo. Como bairro é sempre masculino, os manos e as minas trocam as bolas e mudam o gênero da nossa bela e feminina Belém, que de tão mulherzinha, tem até nome de Santa na Certidão de Nascimento: Santa Maria de Belém do Grão Pará.
Viu só o que é uma cidade poderosa? Tem nome de Santa e sobrenome nobre! Grão Pará!
Estou agora em Boa Vista, capital de Roraima, cidade que os minos, as minas, o meus, os seus e os nossos teimam em confundir com Porto Velho, capital de Rondônia.
Boa Vista, talvez inspirada pelo próprio nome e por ser a capital brasileira mais alta no mapa, enxerga possibilidades de crescimento e oportunidades de negócios como bem poucas capitais.
Cidade planejada, vias largas e expressas que convergem de uma rotatória central, onde estão locados as sedes do executivo e do legislativo.
Talvez a forma de leque projetada para a cidade fosse uma tentativa de amenizar o calor que castiga a cidade sem piedade.
Saudade das nossas mangueiras em túnel, sombreando as nossas cacholas e arejando as nossas ideias.
Senti falta de verde na cidade. Talvez esteja mal acostumado. Mas, talvez, logo acostume. Quanto tempo ainda durarão as nossas mangueiras?
Regadas pelo descaso municipal, uma após outra, seguem sofrendo. E morrendo.
Não sou um cara sentimental ou saudosista. Sou é calorento mesmo e aqui, senti falta delas.
Boa Vista bem que poderia esverdear seus largos boulevares radiais com árvores tropicais frondosas e frutíferas, como as nossas, que, aliás, um dia já foram deles também, afinal o Grão Pará se extendia até aqui.
Vim dar uma palestra. A terceira em menos de um ano. E cada vez que venho, gosto mais da cidade e da sua gente. Obviamente sinto falta das modernidades que já chegaram em Belém e que ainda estão a caminho daqui.
É impressionante como a gente já viveu em Belém as mesmas expectativas que Boa Vista vive agora, especialmente com relação a chegada de dois shopping centers, ao mesmo tempo. Vivemos isso ha quase 20 anos e aqui, vi a história se repetir. É só o que a cidade fala.
Vê-se nos olhos dos antigos comerciantes da Jaime Brasil a apreensão com os dias que virão. Igualzinho ao olhar que vimos, um dia, nos lojistas da nossa outrora formosa João Alfredo, hoje camelódromo e piratródomo.
Sinto informá-los, caros lojistas da Jaime Brasil: a história sempre se repete.
A única possibilidade de reverter essa tendência é investir em qualificação de mão de obra, layout de loja e profissionalizar a operação.
Shoppings não chegam trazendo só franquias charmosas e guloseimas deliciosas. Chegam como balizadores de um novo patamar em experiência de compra ao consumidor. E a diferença é brutal. O nivelamento vai ser por cima. O sonho da população, com toda certeza, vai ser o pesadelo dos comerciantes que não estiverem preparados para esse novo tempo.
Bom, o avião chegou e a Iris Letieri já está me chamando pra embarcar, com aquela sua voz doce e sedutora. Uma voz assim tipo shopping center.
Mas ainda dá tempo dizer que o legal de escrever é que, se deixarmos as ideias fluirem, as linhas vão ganhando vida própria e a prosa toma um rumo absolutamente inesperado.
Tudo o que eu queria dizer no começo dessa crônica era da enorme saudade que sentia de escrever essas mal traçadas linhas no belemdopara, com ponto com e ponto br, masculino, sim senhor.
Estamos de volta, senhores passageiros dessas minhas viagens. Estamos de volta ao belemdopara e a Belém do Pará.

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