Tenho lido algumas coisas risíveis aqui no tribunal de justiça facebookiano sobre os protestos do dia 15 próximo. Uma delas me causou surpresa pela falta de coerência: dizia que os “coxinhas” só estavam protestando agora porque a gasolina dos seus Hondas Civic aumentou. A primeira pergunta que eu faço é: e o que há de errado nisso? Será que é a estratificação social que determina o que pode e o que não pode ser reclamado? Será que vou ter que pedir permissão para alguém, a partir de agora, na hora de reclamar os meus direitos de cidadão?
É como se só aumentasse o preço do combustível dos “Hondas Civic burgueses” e não também o preço do diesel do “busão” do autor do surpreendente texto. É sabido que a principal causa do aumento da tarifa dos coletivos é o aumento do combustível. Lembram dos tal dos R$ 0,20 centavos de aumento na tarifa pelo qual bradavam contra os tais “black blocs” em maio do ano passado? Pois é isso que é surpreendente no texto do meu amigo do tribunal de justiça facebookiano: em vez de ele estar contente por a “burguesia” agora ter acordado e se unido à “classe trabalhadora” para lutar, entre outras coisas, contra o aumento do combustível, que é fruto direto do maior roubo estatal do mundo, diga-se de passagem, não: autor do texto surpreendente se limita a chamar os protestantes de hoje de “coxinhas”, “burgueses”, “elite”…
Não lembro de ter lido em nenhum momento a palavra cidadão. Sim, cidadão que começou a trabalhar aos quatorze anos desenhando logotipos para embalagens de uma fábrica de plásticos; que trabalha até hoje, aos cinquenta anos, aos sábados e domingos se necessário for; que decidiu fazer pós graduação aos quarenta e sete anos; que até o ano passado dava aulas até as onze da noite em uma faculdade; que paga a maior carga tributária do mundo; que vive num estado gerador de energia e paga a maior tarifa do Brasil; que pisa nas maiores reservas do mundo de minérios e não vê um mísero tostão dessa fortuna reverter em benefícios para a população…
Se isso é ser “coxinha”, meu amigo, então eu sou, com muito orgulho, “coxão”. Se hoje faço parte de uma elite branca coxinha privilegiada que olha o mundo de uma sacada gourmet, é porque, todo dia, acordo as seis da manhã e faço por merecer cada centímetro quadrado de conforto que consigo proporcionar para a minha família. Por isso, posso e tenho direito de reclamar sim do que eu quiser e na hora em que eu quiser.
A propósito: não tenho Honda Civic e, apesar do nome pomposo, estudei o primeiro e o segundo grau em escola pública. O meu passaporte para chegar até aqui não foi nome e nem sobrenome. Foi respeito ao próximo, estudo e trabalho. Muito trabalho.

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