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Blog do CesarPB

Delírios Criativos, Mídia Digital e outras bobagens.

mês

março 2015

A boa e velha Babilônia!

Quem se escandaliza com a novela é porque nunca leu Aluísio Azevedo, Shakespeare e outros clássicos da literatura nacional e universal baseados em traições, fratricídios, homosexualidade, entre outras coisinhas pouco amenas. Para quem se escandaliza, existe a opção de mudar de canal ou de desligar a televisão, né? Aí, vão poder assistir – e adorar – Game of Thrones, que tem tudo isso, em dobro, mas, como se passa na idade média e não tem a ver com a nossa realidade, não choca a nossa vidinha mais ou menos. Ora bolas: isso só prova que traição, fratricídio e homosexualidade existem desde que o mundo é mundo. Desde que Caim matou Abel. Desde que o imperador Adriano (o romano e não o carioca) dividia seu leito com o jovem Antínoo, para quem, aliás, ergueu três templos – Bitínia, Mantineia e Atenas – além de uma cidade inteira, Antinoópolis. Babilônia, como se vê, já existe, desde os tempos… da Babilônia. Sim, a vida imita a arte e arte imita a vida. Mas vida é vida e arte é arte! Não faço aqui um manifesto em favor do fratricídio, do assassinato, do aborto e nem do homosexualismo. Me manifesto, sim, a favor da liberdade criativa de escritores e romancistas. Me manifesto, sim, em favor do livre arbítrio, onde cada um pode decidir o que quer e o que não quer assistir na TV, no cinema, no teatro ou ler nos livros. Cada um é livre pra viver os amores que quer viver. Só acho que mundo é capaz de sobreviver a guerras, pestes e até a queda de asteróides. Mas morre um pouquinho sem boas histórias para serem contadas.

Fritando coxinha na sacada gourmet

Tenho lido algumas coisas risíveis aqui no tribunal de justiça facebookiano sobre os protestos do dia 15 próximo. Uma delas me causou surpresa pela falta de coerência: dizia que os “coxinhas” só estavam protestando agora porque a gasolina dos seus Hondas Civic aumentou. A primeira pergunta que eu faço é: e o que há de errado nisso? Será que é a estratificação social que determina o que pode e o que não pode ser reclamado? Será que vou ter que pedir permissão para alguém, a partir de agora, na hora de reclamar os meus direitos de cidadão?
É como se só aumentasse o preço do combustível dos “Hondas Civic burgueses” e não também o preço do diesel do “busão” do autor do surpreendente texto. É sabido que a principal causa do aumento da tarifa dos coletivos é o aumento do combustível. Lembram dos tal dos R$ 0,20 centavos de aumento na tarifa pelo qual bradavam contra os tais “black blocs” em maio do ano passado? Pois é isso que é surpreendente no texto do meu amigo do tribunal de justiça facebookiano: em vez de ele estar contente por a “burguesia” agora ter acordado e se unido à “classe trabalhadora” para lutar, entre outras coisas, contra o aumento do combustível, que é fruto direto do maior roubo estatal do mundo, diga-se de passagem, não: autor do texto surpreendente se limita a chamar os protestantes de hoje de “coxinhas”, “burgueses”, “elite”…
Não lembro de ter lido em nenhum momento a palavra cidadão. Sim, cidadão que começou a trabalhar aos quatorze anos desenhando logotipos para embalagens de uma fábrica de plásticos; que trabalha até hoje, aos cinquenta anos, aos sábados e domingos se necessário for; que decidiu fazer pós graduação aos quarenta e sete anos; que até o ano passado dava aulas até as onze da noite em uma faculdade; que paga a maior carga tributária do mundo; que vive num estado gerador de energia e paga a maior tarifa do Brasil; que pisa nas maiores reservas do mundo de minérios e não vê um mísero tostão dessa fortuna reverter em benefícios para a população…
Se isso é ser “coxinha”, meu amigo, então eu sou, com muito orgulho, “coxão”. Se hoje faço parte de uma elite branca coxinha privilegiada que olha o mundo de uma sacada gourmet, é porque, todo dia, acordo as seis da manhã e faço por merecer cada centímetro quadrado de conforto que consigo proporcionar para a minha família. Por isso, posso e tenho direito de reclamar sim do que eu quiser e na hora em que eu quiser.
A propósito: não tenho Honda Civic e, apesar do nome pomposo, estudei o primeiro e o segundo grau em escola pública. O meu passaporte para chegar até aqui não foi nome e nem sobrenome. Foi respeito ao próximo, estudo e trabalho. Muito trabalho.

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