Minha filha foi dar um rolezinho no shopping hoje com o namorado e… “ops”, melhor parar por aqui: rolezinho, agora, não me parece uma boa coisa para mocinha de família fazer num shopping center.
O jovem casal teve que voltar da porta do estabelecimento, aconselhado pela polícia, pois também jovens, ditos estudantes, estavam concentrados na escadaria, prontos para invadí-lo com cartazes e o inebriante grito de guerra: “O rolezinho é meu e de vocês. A juventude pobre tem direito a lazer”.  Com o perdão do trocadilho: se o grito de guerra já era pobre em rima, em conceito é de uma pobreza franciscana também.
Vejamos: shopping Center é a tradução literal de centro de compras. Comprar, por sua vez, na primeira definição do dicionário Aulete, significa “Adquirir (algo, bem, serviço etc.) em troca de pagamento (à vista ou a crédito)”. Não precisa ser mestre para ver que os nossos gloriosos estudantes merecem nota zero em redação, língua estrangeira e interpretação de texto. Compra e lazer são verbetes de significado absolutamente diferentes. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Shopping Center é, primordialmente, lugar de compra. Nele, até o lazer é pago. De graça, só andar nos corredores e, por enquanto, usar o banheiro. De resto, tudo tem um preço e tem que ser assim mesmo, para que a conta do conforto e da segurança feche.
E cá pra nós: se não vai comprar, se não vai lanchar ou se não vai ao cinema em busca de lazer, é infinitamente mais agradável passear nas nossas belas praças, tomar um banho de cultura no nosso centro histórico ou até mesmo sentir a brisa que sopra da Baia do Guajará, na orla da cidade. Ler um livro para melhorar a redação e a inteligência também não custa nada nas bibliotecas públicas e, garanto, é o melhor investimento que qualquer pessoa pode fazer.
E antes que me atirem a primeira pedra, já sentei em muito banco de praça aos domingos e viajei em muitos livros, quando a grana estava curta e não dava pra sequer chegar na nossa gloriosa Salinópolis.
Sabe aquele ditado que diz “se não sabe brincar, não desce pro play”? Pois acho que cabe como uma luva para os rolezetes: se a grana tá curta, “cumpadi”, passa longe de um shopping center e vai em busca de cultura ou, até mesmo, de trabalho que te ajude a sair da pindaíba. 
Os shopping centers estão aí, de portas abertas para quem quiser comprar, ou até passear, com civilidade e educação. São templos de consumo. São, talvez, o símbolo máximo da sociedade capitalista e aí, acredito, é que está o xis da questão. Mais uma vez os estudantes estão sendo usados como massa de manobra. Só que antes, os motivos eram mais nobres, justos e necessários: há exatos trinta anos fez-se um mega rolezão nacional pelas eleições diretas. Logo depois, outro para tirar do poder o primeiro presidente eleito depois de vinte anos de ditadura militar.
O filme que a minha filha queria assistir chama-se “O lobo de Wall Street” e mostra toda a podridão do capitalismo num gabinete da rua mais capitalista do planeta. Que bom que ela voltou pra casa e, nesse exato instante, está lendo um livro chamado “Queda de Gigantes”, que conta sob a forma de romance, a história do início do século vinte e termina, justamente, mostrando as atrocidades cometidas pelos bolcheviques, após a concretização da revolução que implantou o comunismo na Russia.
Graças ao rolezinho, portanto, minha filha está lendo um pouquinho mais, ganhando cultura e conhecimento. Certamente vai poder interpretar melhor a história e discernir com mais segurança a rima que quer que a sua vida tenha. 
Pelo menos, acredito, que uma coisa ela já aprendeu: massa de manobra e massa cinzenta são coisas inversamente proporcionais.

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