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Blog do CesarPB

Delírios Criativos, Mídia Digital e outras bobagens.

mês

janeiro 2014

Jovem, você é massa!

Minha filha foi dar um rolezinho no shopping hoje com o namorado e… “ops”, melhor parar por aqui: rolezinho, agora, não me parece uma boa coisa para mocinha de família fazer num shopping center.
O jovem casal teve que voltar da porta do estabelecimento, aconselhado pela polícia, pois também jovens, ditos estudantes, estavam concentrados na escadaria, prontos para invadí-lo com cartazes e o inebriante grito de guerra: “O rolezinho é meu e de vocês. A juventude pobre tem direito a lazer”.  Com o perdão do trocadilho: se o grito de guerra já era pobre em rima, em conceito é de uma pobreza franciscana também.
Vejamos: shopping Center é a tradução literal de centro de compras. Comprar, por sua vez, na primeira definição do dicionário Aulete, significa “Adquirir (algo, bem, serviço etc.) em troca de pagamento (à vista ou a crédito)”. Não precisa ser mestre para ver que os nossos gloriosos estudantes merecem nota zero em redação, língua estrangeira e interpretação de texto. Compra e lazer são verbetes de significado absolutamente diferentes. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Shopping Center é, primordialmente, lugar de compra. Nele, até o lazer é pago. De graça, só andar nos corredores e, por enquanto, usar o banheiro. De resto, tudo tem um preço e tem que ser assim mesmo, para que a conta do conforto e da segurança feche.
E cá pra nós: se não vai comprar, se não vai lanchar ou se não vai ao cinema em busca de lazer, é infinitamente mais agradável passear nas nossas belas praças, tomar um banho de cultura no nosso centro histórico ou até mesmo sentir a brisa que sopra da Baia do Guajará, na orla da cidade. Ler um livro para melhorar a redação e a inteligência também não custa nada nas bibliotecas públicas e, garanto, é o melhor investimento que qualquer pessoa pode fazer.
E antes que me atirem a primeira pedra, já sentei em muito banco de praça aos domingos e viajei em muitos livros, quando a grana estava curta e não dava pra sequer chegar na nossa gloriosa Salinópolis.
Sabe aquele ditado que diz “se não sabe brincar, não desce pro play”? Pois acho que cabe como uma luva para os rolezetes: se a grana tá curta, “cumpadi”, passa longe de um shopping center e vai em busca de cultura ou, até mesmo, de trabalho que te ajude a sair da pindaíba. 
Os shopping centers estão aí, de portas abertas para quem quiser comprar, ou até passear, com civilidade e educação. São templos de consumo. São, talvez, o símbolo máximo da sociedade capitalista e aí, acredito, é que está o xis da questão. Mais uma vez os estudantes estão sendo usados como massa de manobra. Só que antes, os motivos eram mais nobres, justos e necessários: há exatos trinta anos fez-se um mega rolezão nacional pelas eleições diretas. Logo depois, outro para tirar do poder o primeiro presidente eleito depois de vinte anos de ditadura militar.
O filme que a minha filha queria assistir chama-se “O lobo de Wall Street” e mostra toda a podridão do capitalismo num gabinete da rua mais capitalista do planeta. Que bom que ela voltou pra casa e, nesse exato instante, está lendo um livro chamado “Queda de Gigantes”, que conta sob a forma de romance, a história do início do século vinte e termina, justamente, mostrando as atrocidades cometidas pelos bolcheviques, após a concretização da revolução que implantou o comunismo na Russia.
Graças ao rolezinho, portanto, minha filha está lendo um pouquinho mais, ganhando cultura e conhecimento. Certamente vai poder interpretar melhor a história e discernir com mais segurança a rima que quer que a sua vida tenha. 
Pelo menos, acredito, que uma coisa ela já aprendeu: massa de manobra e massa cinzenta são coisas inversamente proporcionais.

O WhtasApp é o nosso Cocoon.

Lembram de Cocoon, o filme, caros leitores? Exatamente: aquele filme onde haviam misteriosas pedras no fundo de uma piscina e os velhinhos de um asilo próximo, que banhavam-se naquelas águas, rejuvenesciam, curavam os males da idade e a vida virava uma festa?
Pois então: o WhatsApp é o novo Cocoon. Pelo menos para a turma do Convênio de 1981 do NPI, da qual este humilde escriba tem a honra de fazer parte, está sendo sim.
Nas véspera do Natal de 2013, fomos brindados com esse belo presente: amigos que antes estavam invisíveis, foram agrupados na mesma turma outra vez e, agora, reúnem-se 24 horas por dia, sete dias por semana, relembrando histórias que estavam latentes nas nossas memórias e que nos fazem voltar mais de 30 anos no passado, como se o passado fosse ontem.
E não pensem que as reuniões são apenas virtuais. A rapaziada tem desligado os smartphones e caído na vida real: tem o grupo do almoço de sexta, da bicicleta, do samba, do Cortiço, do Quintal da Velha e, principalmente, o grupo da manguaça, que consegue a proeza de reunir todos os nossos subgrupos em torno do mesmo brinde à amizade e à vida. Aliás, vidas! Vidas que seguiram caminhos tão diferentes, mas, ao mesmo tempo tão iguais, talvez por culpa da nossa escola, que era diferente das outras por ser uma escola pública federal em plena época da ditadura militar, mas que educava nos melhores princípios socialistas, sem distinção, colocando lado a lado, pessoas tão diferentes, que só a escola da vida talvez não fosse capaz de reunir.
Hoje, olhando pelo retrovisor da história, parece absurdamente impossível que a mesma escola que obrigava alunos a entoar, enfileirados militarmente, o Hino Nacional todos os dias antes das aulas, fosse a mesma – e única – a promover a utópica igualdade socialista, fornecendo o mesmo uniforme, o mesmo lápis, o mesmo caderno, a mesma merenda e o mesmo transporte gratuito a todos, sem distinção. O governo que caçava comunistas e socialistas nas nossas ruas, colocava em prática, nas suas escolas, a filosofia combatida. Emblematicamente, somos da geração que nasceu em 1964!
Não sou sociólogo, psicólogo e nem cientista político para debater este tema com a profundidade que ele possa merecer, por isso encerro aqui esse parêntesis histórico e volto a focar a crônica no seu objetivo inicial.
Como escrevi alguns parágrafos acima, o tempo parece que não passou neste hiato de 32 anos: os apelidos permanecem os mesmos e as brincadeiras, sempre sadias, também: o Dr. Claudio Humberto é o eterno Boi Doido, a Annete é a Fofura, o Fernando é o Bombom, o Norberto é o Padre, a Silvia é a Santinha, o Pedroca é e sempre será o Pedroca, a Rita é a Miss, a Margareth a Mãe de Miss e o Marcelo só não tem mais o apelido que tinha porque não quer ter, mas, é bem verdade, continua fazendo por merecê-lo – e amigos verdadeiros são aqueles que respeitam a vontade dos amigos sem jamais questioná-las.
Só sei é que, tais e quais os velhinhos serelepes do Cocoon, estamos nos divertindo a beça nesse reencontro com os jovens que um dia fomos e que, certamente, sempre seremos, enquanto houver boas histórias para serem contadas e boas histórias para ainda serem vividas.
E quem não gostar, que vá reclamar na diretoria!

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