Acabei de ver no Fantástico matéria com o Dr. Dráuzio Varela – aquele que sempre veste camisa azul clara e calça cinza, já reparou? – dizendo que não se deve soprar sobre as feridinhas dos nossos filhos. Coisa que todo pai ou mãe já fez. Imediatamente lembrei de um crônica que escrevi no ano de 2000 e que segue abaixo, como forma de protesto:

Merthiolate, sim! Corrupção, não!

Depois de 36 anos usando Merthiolate nas minhas perebas e arranhões, fiquei chocado ao saber que meus gritos desesperados de dor e os soprinhos da mamãe em cima das feridas, logo depois de passar aquela palhetinha de plástico na carne viva, não serviram pra nada.

Como pode o Ministério da Saúde proibir a fabricação do Merthiolate e do Mercúrio Cromo, assim, de repente, dizendo que não servem pra nada, sem fazer um plebiscito nacional? Como assim, não servem pra nada? Claro que tinha que ter plebiscito sim. São dois produtos que estão na minha, na sua e na casa de todos os brasileiros. Não podem desaparecer assim, de uma hora pra outra, sem pelo menos uma explicação mais plausível. Vamos todos nos sentir desamparados agora. Eu, que tenho filhas pequenas e peraltíssimas, que caem e se ralam a toda hora, já estou vendo os micróbios e as bactérias lá de casa fazendo a maior festa. Cada arranhãozinho sem Merthiolate ou Mercúrio vai ser um farto banquete pra essa minúscula legião de esfomeados que habita sorrateiramente cada milímetro quadrado dos nossos lares.

E quem foi que disse que esses remédios não funcionam?

Ora, quem disse: o mesmo governo que há poucos anos atrás obrigava a gente a ter dentro do carro um kit de primeiros socorros. E dentro deste kit não podiam faltar, justamente, Merthiolate ou Mercúrio Cromo. Senão tivéssemos os vidrinhos dentro do kit e a autoridade te parasse no trânsito, era multa na hora. Lembra disso?

O mais absurdo disso tudo é que, na situação de uma porrada catastrófica com o carro, com pedaço de gente pra tudo quanto é lado, esses remédios para pouco ou nada serviriam mesmo. Mas eram obrigatórios. Já nos pequenos acidentes domésticos, onde eles sempre mostraram sua competência, vem uns burocratas lá de Brasília dizer que não servem pra nada.

Não sei não, mas isso ta me cheirando a jogada eleitoral.

Quer saber porque? É simples, meu caro. Basta ver a cor que a gente ficava quando se lambuzava de Mercúrio Cromo ou de Merthiolate. Você acha que o Serra, Ministro da Saúde e presidenciável de plantão ia deixar isso passar batido. Você acha que ele ia dar de graça essa mídia pra oposição?

Não duvido que, exatamente neste momento, a oposição já esteja colhendo assinaturas para instalar a CPI do Merthiolate, na qual teria todo o meu apoio. E tenho certeza que o seu também, não apenas pelo aspecto político da coisa, mas, sobretudo, profilático.

Vamos todos às ruas! Vamos pintar nossas caras de vermelho Merthiolate e fazer a nossa parte. Todos gritando “Merthiolate, sim! Corrupção, não!”.

Depende de cada um de nós não deixar que os micróbios, inclusive os de Brasília, vençam esta luta justa e dolorida.

A propósito: não estou levando um puto sequer dos fabricantes para iniciar esta campanha.

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