Ontem foi o funeral de Whitney Huston. Engraçado isso: aqui a gente não tem a manha de chamar funeral de funeral. Vai ver porque aqui a coisa é bem menos pomposa do que o que a gente viu ontem, em transmissão ao vivo e a cores para muitos países. Showzão! Digno de Whitney.

Mas é estanho pra nós, latinos, que encaramos a morte como um momento de luto, tragédia, silêncio e dor, entender a cultura anglo-saxônica onde o velório é celebrado e os mortos lembrados em versos e prosas, durante dias e dias, com mesa farta, bolinhos e salgadinhos.

Por Deus do céu: ontem, na frente da TV, muitas vezes esqueci que debaixo daquele monumental arranjo de flores que cobria o cintilante esquife minimalista, estava um corpo inerte e, se não fossem o bom serviço de embalsamamento, nem tão inodoro, já que se passavam sete dias do momento em que foi encontrado, sem vida, numa banheira de hotel hollywoodiano.

A qualquer instante, entre um acorde do imortal Steve Wonder e  outro da talentosa Alicia Keys, achava que a tampa do caixão iria se abrir e Whitney ia aparecer rebolativa, com seu vozeirão cantando IIIII Waaaannnaaa daaaaance with someboooodyyyyy!!!!

Sério, foi só isso que faltou. Até os guarda-costas estavam lá pra segurar qualquer onda mais pesada: tanto o efetivo quanto aquele outro do filme. Aliás, pelo que se leu nas entrelinhas do discurso do Kevin Costner, durante algum tempo, ele saiu da ficção pra guardar muito mais do que as costas da Whitney na vida real. Aposto todos os meus vinténs que rolou muito And IIIII Wiiilll alwaaayyyyysss loooovveeeeeee yyyouuu uuu uuuu uuu!!! Ao pé do ouvido do Mr. Costner.

E reverendo Al Sharpton, hein? Pontinho pro estrelato: pregou, orou, cantou, tocou piano e regeu o coral, não necessariamente nessa ordem, mas com absoluta competência para hipnotizar a platéia que, em transe, erguia as mãos os céus repetindo cantos de Glória. Parecia assim um Michel Teló de batina, todo animadinho.

Em emoção o funeral  da Whitney disputou nota por nota com o do Michael Jackson, mas o dela foi muito mais animado e festivo.

Aliás no quesito animação e irreverência, o funeral da Whitney só perdeu, e de longe, pro do meu avô, que morreu em casa, ao meio-dia e foi enterrado as quatro da tarde do mesmo dia.

Explico: teimoso que só, vovô foi o último dos amigos a morrer e por isso mesmo, seu velório tinha tudo pra ser um retumbante  fracasso de público. Os filhos então, reunidos em volta do corpo, decidiram: enterro o mais rápido possível, comunicando os parentes por telefone mesmo, pra poupar a vovó, já doente e com 90 anos, do sofrimento de passar uma noite em claro velando o falecido.

Até aí, tudo bem. Mas, sabe como é, sábado, hora do almoço, velório em casa, chega um e abre uma cerveja, vem outro e pega um whiskinho, outro já pede pra cozinheira uma calabrezinha frita  e o velório do vovô foi virando uma celebração eucarística digna dele que, para agradar os amigos, andava pra lá e prá cá com uma Bíblia falsa, que continha, em vez das apostólicas mensagens, uma garrafinha sempre abastecida com a batida de maracujá que ele mesmo preparava com cachaça de Abaeté e dois copos providenciais.

Bom, se você está escandalizado com isso, então pare de ler essa crônica agora, porque você vai ficar ainda mais horrorizado ao saber que vovô foi velado na sala, com o féretro saindo de cima da mesa de jantar direto para o cemitério de Santa Izabel.

A verdade é que vovô Adalberto, tal qual Whitney, teve um funeral do arromba. O dela, com música e emoção. O dele, com o que ele também sabia fazer de melhor: uma biritada de primeira e muita, mas muita alegria de viver. E de morrer.

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