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Blog do CesarPB

Delírios Criativos, Mídia Digital e outras bobagens.

mês

fevereiro 2012

O funeral da Whitney e o velório do vovô

Ontem foi o funeral de Whitney Huston. Engraçado isso: aqui a gente não tem a manha de chamar funeral de funeral. Vai ver porque aqui a coisa é bem menos pomposa do que o que a gente viu ontem, em transmissão ao vivo e a cores para muitos países. Showzão! Digno de Whitney.

Mas é estanho pra nós, latinos, que encaramos a morte como um momento de luto, tragédia, silêncio e dor, entender a cultura anglo-saxônica onde o velório é celebrado e os mortos lembrados em versos e prosas, durante dias e dias, com mesa farta, bolinhos e salgadinhos.

Por Deus do céu: ontem, na frente da TV, muitas vezes esqueci que debaixo daquele monumental arranjo de flores que cobria o cintilante esquife minimalista, estava um corpo inerte e, se não fossem o bom serviço de embalsamamento, nem tão inodoro, já que se passavam sete dias do momento em que foi encontrado, sem vida, numa banheira de hotel hollywoodiano.

A qualquer instante, entre um acorde do imortal Steve Wonder e  outro da talentosa Alicia Keys, achava que a tampa do caixão iria se abrir e Whitney ia aparecer rebolativa, com seu vozeirão cantando IIIII Waaaannnaaa daaaaance with someboooodyyyyy!!!!

Sério, foi só isso que faltou. Até os guarda-costas estavam lá pra segurar qualquer onda mais pesada: tanto o efetivo quanto aquele outro do filme. Aliás, pelo que se leu nas entrelinhas do discurso do Kevin Costner, durante algum tempo, ele saiu da ficção pra guardar muito mais do que as costas da Whitney na vida real. Aposto todos os meus vinténs que rolou muito And IIIII Wiiilll alwaaayyyyysss loooovveeeeeee yyyouuu uuu uuuu uuu!!! Ao pé do ouvido do Mr. Costner.

E reverendo Al Sharpton, hein? Pontinho pro estrelato: pregou, orou, cantou, tocou piano e regeu o coral, não necessariamente nessa ordem, mas com absoluta competência para hipnotizar a platéia que, em transe, erguia as mãos os céus repetindo cantos de Glória. Parecia assim um Michel Teló de batina, todo animadinho.

Em emoção o funeral  da Whitney disputou nota por nota com o do Michael Jackson, mas o dela foi muito mais animado e festivo.

Aliás no quesito animação e irreverência, o funeral da Whitney só perdeu, e de longe, pro do meu avô, que morreu em casa, ao meio-dia e foi enterrado as quatro da tarde do mesmo dia.

Explico: teimoso que só, vovô foi o último dos amigos a morrer e por isso mesmo, seu velório tinha tudo pra ser um retumbante  fracasso de público. Os filhos então, reunidos em volta do corpo, decidiram: enterro o mais rápido possível, comunicando os parentes por telefone mesmo, pra poupar a vovó, já doente e com 90 anos, do sofrimento de passar uma noite em claro velando o falecido.

Até aí, tudo bem. Mas, sabe como é, sábado, hora do almoço, velório em casa, chega um e abre uma cerveja, vem outro e pega um whiskinho, outro já pede pra cozinheira uma calabrezinha frita  e o velório do vovô foi virando uma celebração eucarística digna dele que, para agradar os amigos, andava pra lá e prá cá com uma Bíblia falsa, que continha, em vez das apostólicas mensagens, uma garrafinha sempre abastecida com a batida de maracujá que ele mesmo preparava com cachaça de Abaeté e dois copos providenciais.

Bom, se você está escandalizado com isso, então pare de ler essa crônica agora, porque você vai ficar ainda mais horrorizado ao saber que vovô foi velado na sala, com o féretro saindo de cima da mesa de jantar direto para o cemitério de Santa Izabel.

A verdade é que vovô Adalberto, tal qual Whitney, teve um funeral do arromba. O dela, com música e emoção. O dele, com o que ele também sabia fazer de melhor: uma biritada de primeira e muita, mas muita alegria de viver. E de morrer.

Entre pincéis e carretéis

Voltei aos bancos de escola. Nos próximos 17 meses serei um aplicado aluno de pós-graduação em artes visuais, com direito a carteirinha de estudante e tudo. Agora, no cinema com as filhas, as meias-entradas delas não me farão mais inveja. Difícil vai ser fazer a mocinha da bilheteria acreditar que este senhor de barba grisalha e careca traiçoeira merece, de fato e de direito, tal regalia estudantil.

Hoje, antes da aula inaugural do curso, tive que escutar gracinhas até da minha mulher perguntando se eu não iria levar lancheira pra hora do recreio ou uma maçãzinha pra tia da escola. Tudo bem, faz parte, né?

Pior vai ser quando os velhos amigos chamarem pra uma rodada de gelada no sabadão e eu, gentilmente, declinar o convite por estar em caloroso debate com os novos colegas de classe sobre a importância para o cenário artístico brasileiro dos anos 70 das Inserções em circuitos ideológicos de Cildo Meireles, que colocou o objeto de arte atuando no universo industrial e não mais o objeto industrial no lugar da arte, com a pretensão de fazer o caminho inverso dos readymades.

Entenderam? Nem eu, meus amigos. Ainda tô muito longe de ser um Jaime Bibas, mas um dia eu chego lá. Só peguei isso aí do enunciado de uma questão da prova de um curso similar, para vocês verem onde é que eu fui amarrar a minha carrocinha e, obviamente, para tentar impressionar vocês, posando de bacana.

Mas o que quase me fez desistir de tudo foi que, quando pensei em fazer essa pós, lembrei de pintura, escultura, cinema, fotografia… jamais imaginei que ia ter que estudar e desenvolver projetos sobre assuntos que, nos meus tempos de escola, eram de interesse apenas daqueles coleguinhas mais esquisitinhos. Sim, senhoras e senhores: fui fuçar o conteúdo programático do curso e dei de cara com quatro letrinhas que gelaram a minha alma: m-o-d-a!

Caraca! Logo eu, que não sei a diferença de um tafetá pra um musseline, pode? Tomara que meus velhos amigos das cervejinhas de sábado não estejam lendo essa crônica, senão vou ficar mal falado no boteco com a mais absoluta certeza.

Mas essa coisa mimosa de moda é só uma mera purpurina passageira na grade curricular e o curso é bem completo, abordando a evolução das artes visuais desde os fins do século XIX até hoje. Quer dizer: assim como vai ter um momento Clodovil, vão ter muitos momentos em que teremos que mostrar o Picasso que habita em nós, pra fazer o merecido contaponto.

De modos que é isso: enquanto os meus colegas de escola sonham com o cada vez mais próximo dia de pendurar as chuteiras, eu estou novamente entrando em campo, pintando e, putz… bordando.

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