Senhoras e senhores, sei que o meu dia de glória está próximo. E quando esse dia chegar, tenham certeza, tentarei não escutar a voz que se erguerá do lado negro da minha alma bradando vingança contra os meus detratores. Por mais piedosos que sejamos, todos temos um ladro negro. Eu tenho, você tem e até Madre Teresa devia ter o dela também. Ok, tudo certo: o lado negro da irmã Agnes deve ter sido, no máximo, cinza claro. De negro já bastava o sofrimento que ela tentava amenizar com sua forte e frágil presença, em Calcutá, onde também era conhecida como a Santa das sarjetas..
Essa mesma voz teria escutado Galileu Galilei se tivesse vivido até o dia da sua glória, o dia do reconhecimento de suas impensáveis teorias. Escorraçado pela igreja católica por afirmar que o Sol era o rei da cocada preta e os planetas, entre eles a Terra de Nosso Senhor Jesus Cristo, eram apenas parte da figuração no lindo bailado sideral, Galileu só foi absolvido por Roma em 1983. Ou seja, mais de 300 anos depois de sua morte, em Florença.
Coincidência ou não, nessa mesma década de 80, começou a florescer dentro do meu eu uma das mais revolucionárias teorias, nunca antes na história desse Brasil imaginada pelos nossos filósofos e cientistas de plantão.
Enquanto a maioria dos jovens que acabavam de entrar na  faculdade ainda tinha dúvidas se o plural de guarda-chuva era guarda-chuvas ou “guardas-chuvas”, euzinho, de plena posse das minhas próprias faculdades mentais, começava a esboçar as primeiras equações da teoria que a seguir apresentarei e que, certamente, teria apoio incondicional do velho Galileu, se vivo fosse.
Para que você possa captar toda profundidade da minha inebriante teoria, é preciso que você tenha em mente os dois princípios que a norteiam: o primeiro princípio baseia-se na afirmação de que você conhece ou sabe de alguém que, um dia, já perdeu um guarda-chuva. Sim, claro, você mesmo já pode ter perdido um, não é mesmo?
Já o segundo princípio é aquele que não deixa nenhuma dúvida sobre a validade da minha edificante teoria: você nunca achou, ou não conhece alguém que tenha achado, um guarda-chuva, não é? Vamos lá! Faça um esforço! Tente lembrar de alguém que tenha encontrado um guarda-chuva. Viu? Não adianta! Não existe.
É agora, senhoras e senhores, que entra no ar a teoria do papaizinho aqui: você nunca encontrou e nem vai encontrar um guarda-chuva dando sopa por aí, porque guarda-chuvas não são apenas guarda-chuvas: são sondas extraterrestres, na forma de antenas parabólicas invertidas, que transmitem todo o conhecimento armazenado nas nossas cabeças, para os nossos brothers de outras galáxias. E como toda sonda extraterrestre que se preza, guarda-chuvas se desintegram depois de um certo tempo de uso, para que não possam ter suas avançadas tecnologias estudada pelos gloriosos cientistas do nosso lindo planeta azul.
Ficou claro agora, minha senhora, onde foi parar aquela sua sombrinha verde de bolinhas fúcsias que custou cinco contos lá no camelô da João Alfredo?
E sabe por que você também não encontra mais o camelô no mesmo lugar onde adquiriu a sua sonda espacial que veio com aquele probleminha na abertura de uma das arestas transmissoras e que nós pobre mortais chamamos de varetinha do guarda-chuva? Ora, ora: porque esses caras se teletransportam pros seus planetas de origem logo após desova de uma remessa de sondas por aqui. Simples assim!
Já sei, você também está rindo da minha cara, achando tudo isso uma grande loucura, um delírio absurdo. Normal! O Santo Padre também achava isso das idéias daquele nosso amigo italiano do começo dessa crônica, até que deu com os burros n’água.
E olha que eu ainda nem comecei a falar da minha outra inabalável teoria: você, certamente, já perdeu uma caneta Bic, né? Mas responda: conhece alguém que já tenha encontrado alguma? Tente lembrar! Faça um esforço! Não, né?
Tá bom, tá bom: é melhor pararmos por aqui. Sai, Galileu! Sai deste corpo que não te pertence!

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