Por Deus do Céu, nunca senti tanta falta de uma babá! Nada disso que estão pensando, caros leitores. Já passei das duas fases: da fase de precisar de uma babá para brincar e daquela outra fase de querer brincar com todas as babás da rua, lá pelos 14 ou 15 anos.

O papo é o seguinte: neste exato momento em que escrevo, às 9h15 de sábado, dia 14 de abril, estou aproveitando o único momento de folga que tive desde que inventei de viajar com a mulher e as duas filhas, sozinhos, sem babás, enfermeiras e toda aquela tropa que quem tem filhos pequenos sabe muito bem o que significa.

No aspecto de integração familiar, a viagem não poderia ter sido melhor. Realmente, acho que todo mundo precisa parar tudo de vez em quando e sair por aí enfrentando a barra de ser pai em tempo integral. Apesar do cansaço, vale muito à pena.

Olha só: há pouco mais de uma semana, esta cena não teria acontecido: eu aqui, escrevendo, com as duas filhas no quarto do hotel, sem ter a mulher, a avó, a babá ou a enfermeira do lado pra cuidar delas. A mulher, é claro, foi às últimas compras – aliás, porque todas as mulheres deixam as últimas compras para as últimas horas da viagem? – e eu estou aqui, vivendo esse momento lindo, como diria o rei.

Já escovei os dentes da mais velha, limpei remelas da mais nova, que pra completar está gripadíssima, com o nariz escorrendo de 3 em 3 minutos e eu lá, metendo a mão na massa pra deixar o salãozinho dela brilhando.

-Pai! Eu quero uma calcinha!!

Acabei de escutar isso agora e vou ter que parar de escrever pra procurar a bendita calcinha que, com certeza, já deve estar guardada no fundo na mala.

Tic… tac… tic… tac…

Quinze minutos depois, eis-me aqui de volta e de banho tomado. Banho de Danoninho, claro. Aquele que, dizem, vale por um bifinho. Tente dar para sua filha de dois anos um pote de Danoninho sem amarrá-la muito bem na cadeira e você acabará todo lambuzado também.

Mas, voltando ao caso da calcinha, não era uma calcinha qualquer que a mais velha queria. Era a calcinha da Sandy.

iPhone Draw – Cesar Paes Barreto.
Reprodução proibida.

Ainda tentei dizer que essa eu também queria, mas vi que isso ia complicar a cabecinha dela. Ela poderia acabar achando que eu era esquizitão e tal. Decidi nem tocar no assunto e abri a mala tentando achar a bendita calcinha. Como não achei a calcinha da filha do Xororó, mas achei um biquini da Barbie, tive que utilizar toda a minha capacidade de negociação: ela topou ficar usando o biquini, com a promessa de quando eu acabar este artigo, subirmos para um banho de piscina.

Mas tudo isso hoje foi moleza comparando com a tarde de ontem. Eu e minha mulher achamos que seria ótimo levar as meninas no alto do Corcovado, para conhecerem o Cristo Redentor. Isso iria fazer bem para a formação moral e espiritual delas. Essas coisas que todos os pais acham legais e que a gente acha mó caretice quando ainda é filho, mas faz tudo igual depois que vira pai.

Só que esquecemos que ontem foi sexta-feira. Bom, não exatamente uma sexta-feira qualquer, mas Sexta-feira Santa, ou seja, a sexta em que o cara que a gente foi visitar sartou fora, pra voltar fazendo assombração três dias depois.

Não, você não tem idéia de quanta gente tinha lá no Cristo. Só de engarrafamento na subida do morro foram cinqüenta minutos. Cinqüenta minutos ouvindo tô com sono, tô com fome, quero fazer xixi… Quero voltar que é bom, não escutei nenhuma vez. E não seria eu o herege que iria propor essa idéia.

Chegando lá tive que pagar todos os meus pecados, que agora sei, não são poucos, enfrentando aquela escadaria interminável, carregando fardos extras de 11 kg no braço direito e 16 kg no esquerdo: as duas filhotas. Isso, claro, sem contar no meu próprio peso extra, conseguido nestes 7 dias de comilança aqui na cariocolândia. O resultado foi que, ao chegar no Cristo, eu caí, literalmente, de joelho aos seus pés. Lembro da cara piedosa de duas velhinhas carolas me olhando. Uma delas ainda ensaiou jogar uma moedinha, mas eu, prontamente, recusei, agradecendo.

Além de Sexta-feira Santa, ontem foi sexta-feira 13. Só que isso, eu também tinha esquecido.