Sabe onde estou agora? Numa loja de roupas femininas.

Bom, tem maridos que detestam entrar em lojas de roupas femininas. Comigo é um pouco diferente: eu, no papel de marido, também abomino isso do fundo da minha alma. Mas, no papel do escritor de crônicas, acho fascinante.

Não existe nada mais entediante pro marido do que passar mais de uma hora fazendo cara de paisagem, enquanto a mulher escolhe vestidinhos que ele jamais daria a ela, porque teria absoluta certeza que ela odiaria cada um deles do fundo da alma dela também. Mas parece que ela faz questão de comprar justamente esses, pra mostrar toda a sua incompetência na hora dessa tão importante ferramenta da integração matrimonial: a escolha do presente dela.

Já entrou numa loja de roupas femininas sozinho pra comprar o presente da sua cara metade e sentiu isso na pele, né, meu amigo?

Agora mesmo, aqui na minha frente, observo um coitado de um marido com cara de pânico. Duas vendedoras tentam salvá-lo do previsível desastre. Estou pra levantar da poltrona para alertá-lo do risco de vida iminente.

É sério, senhores! Depois de ficar em duvida entre 35 modelos diferentes, o maridão escolheu um macaquinho de seda branco com bolinhas pretas. O problema não é o gosto duvidoso do modelito. Isso, a gente sabe que marido nenhum vai conseguir acertar em cheio. O problema maior é que o infeliz acaba de sair da loja levando na sacola um macaquinho de seda branca de bolinhas pretas, tamanho GG.

Ora, ora… Que ela não goste do tecido ou do modelo, tudo bem, afinal você não é nenhum Jaques Leclair e, no fundo, ela vai ficar até aliviada por você não ser um cara, digamos assim, tão dedicado às plumas e aos paetês.

O que o futuro defunto não percebeu foi o agravante do crime que, involuntariamente, cometeu: o treco é GG, meus amigos.

A estampa boi-bumbá pouco importa nessas horas. O diabo é o tamanho da peça. O marido exemplar, certamente pensou no conforto da esposa e no caimento da peça naquele corpinho não exatamente com o caimento tão em dia. Mas isso não é desculpa para a pena capital feminina:

– Você está me chamando de gorda??!!

Vai ser ele dar o presente pra sentença de acusação ficar retumbando na cabeça dele para toda a eternidade.

Não vai adiantar o cara se ajoelhar no milho e pedir perdão. Dar uma roupa GG é declarar guerra. É pior do que traí-la com a melhor amiga da infância. Ou se negar a pegar a mãe dela na rodoviária porque tem RE X PA no mesmo horário.

Por mais retumbante que seja a sua patroa, meu amigo, dê um modelito, no máximo, tamanho M pra ela e você ganha pontos importantíssimos na relação matrimonial.

Ela jamais vai se importar de ir na loja fazer a troca pelo GG, desde que ninguém precise saber disso, não é mesmo? E depois que ela tesourar a etiqueta, acaba a prova do crime e ela vai desfilar feliz, se achando toda toda, com o presente que você deu pra ela.

É meu amigo, casamento pra durar, tem que obedecer algumas etiquetas. E certamente a do tamanho do vestido não faz parte delas.

Amanhã, cedinho vou ler o obituário no jornal e rezar uma Ave Maria pela pobre alma que, há pouco, saiu aqui da loja.

Eu? Bom, sigo aqui me divertindo, cheio de graça, escrevendo bobagens, esperando o tempo passar.

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