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Blog do CesarPB

Delírios Criativos, Mídia Digital e outras bobagens.

Olhar de Mãe

Todo ano o Raymundo Mario Sobral, auto proclamado Comendador da Ordem do Macaco Torrado, me pede uma mini crônica para edição do Círio da Revista Chá de Cadeira, distribuída gratuitamente em consultórios médicos e afins. E, neste ano, a crônica tinha que tentar responder a difícil questão “Na sua opinião, o que é o Círio?”.
Missão dada, missão cumprida, nas linhas a seguir:

…….

Outro dia o Comendador perguntou o que era o Círio, na minha opinião. Fiquei matutando e não consegui uma resposta convincente. Resolvi então perguntar aos mais diretamente envolvidos. Quem sabe eles não me ajudariam a elucidar esse mistério que, mesmo depois de duas décadas e uns trocados, ainda deixa a gente sem resposta, né?

Me piquei então pras bandas do Ver-o-Peso e perguntei pro senhor Pato o que era o Círio pra ele. Não deu nem tempo de escutar sequer um mísero quá. O bicho saiu de lá chispado.

Corri então pra dona Maniva e fiz a mesma pergunta. Devagar como sempre, senti que ela ia levar uns sete dias cozinhando a resposta.

Meio sem rumo, ainda tentei falar com o senhor Jambu, mas, coitado, deve ser Parkinson: se tremeu todinho e foi logo murchando.

Sem tempo a perder, decidir ter um tête-à-tête direto com a homenageada: entrei na Basílica e, de joelhos, supliquei a resposta. Também nada escutei. E nem foi preciso. A resposta sempre está lá, naquele olhar terno, naquele olhar de mãe.

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O ALMOÇO DE AMANHÃ

– Amor, amanhã é sábado. Que tal a gente preparar aquele churrasquinho bacana?
– Melhor não, né! Não viu na TV que a calabresa foi entupida com carne de cabeça de porco e que a picanha estava fora da validade, disfarçada com uns trecos químicos?
– Caramba! Então que tal um hamburgão ou umas almôndegas deliciosas?
– Também não vai dar. Só se você tiver muito a fim de comer papelão. Estavam moendo tudo junto com a carne também.
– O jeito vai ser ir de peixe, né?
– Que peixe, mané? Tu não leste também que lá na Bahia as pessoas comeram peixe e fizeram xixi pretinho. Diz que já morreram bem uns vinte!
– É, vamos ter que morrer no frango então!
– Só se tu quiseres morrer mesmo ou ficar falando fino e com os peitos maiores que os meus. Tá tudo cheio de hormônio!
– Saladinha então…
– Então nem pensar também. É tanto agrotóxico que melhor nem triscar.
– Não me diz que vai ser macarronada de novo!
– Mas não vai mesmo! Tu não leste no Facebook que glúten faz a gente ficar com barriga d’água?
– Salada de frutas então, tudo bem?
– Tudo bem, tirando que estão mexendo na genética delas. A comadre falou que tem bananeira por aí que está parindo até maracujá.
– Cacete! Já vi que vou encher o bucho só de água.
– Daqueles garrafões adulterados que estão sendo enchidos com água da torneira?
– Porra! Vamos viver de que? De luz?
– Esquece! Aumentou a bandeira tarifaria de novo!
(Cesar Paes Barreto – Março, 2017)

Nem sempre o M vem antes do B

Depois de um dia extenuante, repleto de decisões importantíssimas para o futuro da nação e, principalmente, para o seu próprio destino, Messias merecia relaxar como ha muito tempo não fazia.

Com a garganta seca, foi na adega da cobertura, pegou com cuidado uma garrafa de vinho Miolo de boa safra.

Abriu como se fosse um Romanée-Conti e, antes de servir na cristalina taça que veio por engano na mudança do palácio que um dia ocupou, despejou o precioso líquido no tal do decanter, presente do rei do Catar, mas que a sua patroa, coitada, catava da estante de vez em quando, para usar como jarro para as begônias compradas na feirinha de São Bernardo.

Também, pudera, ninguém tinha explicado para que servia aquela peça tão bonita e delicada.

Enquanto o vinho respirava ganhando novos aromas, Messias cortou a ponta do Havana, regalo do amigo comandante fiel, que chega, religiosamente, todo mês pelo malote que vem da Ilha.

Mas, antes de apertar no botão do isqueiro maçarico cravejado de rubis e esmeraldas que, coincidentemente, veio na mesma mudança enganada, o toque do telefone celular de um segurança próximo começa a repimbocar insistentemente, contrariando a habitual tranquilidade do Messias.

– Atende logo essa merda, caralho! Puta que pariu, corno filho puta!

Desconfiado, o segurança chega ao lado do chefe e, repassando o aparelho, adverte:

– Olha aí, chefia: uma doida que não fala lé com cré, tá dizendo que é a presidenta e que quer falar com o senhor! Se fosse a presidenta ia bem ligar pro meu número? Tu é doido, moleque!?

Assustado e intrigado, Messias arranca o aparelho das mãos do segurança com muita força, como se dez dedos tivesse e a partir daí então, torna-se notório, em rede nacional o diálogo republicano:

Ela: Seguinte, eu tô mandando o “Bessias” junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!

Ele: “Uhum”. Tá bom, tá bom.

Ela: Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.

Ele: Tá bom, eu tô aqui, eu fico aguardando.

Ela: Tá?!

Ele: Tá bom.

Ela: Tchau.

Ela: Tchau, querida.

Foi só ela desligar, pra ele escutar um clique esquisito na linha, entender o que aconteceu e gritar tão alto que deu pra ser ouvido até em Curitiba:

-Puta que pariu!! Fudeu-se!

E assim, o caminho de Messias e Bessias se cruzaram contradizendo gramática, porque, dessa vez, o B veio antes do M.

Um viva ao Bessias!!

Supermarket Colors

Dedo sobre touchscreen
Dedo sobre touchscreen – Proibida a reprodução

Chupa, Vlad!

Hoje estou de alma lavada. Hoje consegui entrar na folha de pagamento da Rede Globo de Televisão. Não que eu vá estrelar a próxima novela global das 22 horas. Ainda não é dessa vez que o Rodrigo Lombardi vai ter um concorrente a altura. Muito menos serei escritor do próximo folhetim. Dona Gloria me daria bola preta lá no grupo de autores por conta de um imbróglio do passado. Mas isso é outro papo e já aconteceu ha umas 435 crônicas atrás. Melhor deixar pra lá.

A verdade é que há 30 anos militando como redator publicitário, escrevendo míseros 30 segundos nos intervalos das atrações da emissora, um dia desses me deu um tiquinho de inveja do meu amigo Vladmir, o Vlad, enfant terrible do jornalismo paraense, antes de ser roteirista e documentarista de mão cheia, que me disse, com ar super blasé, que estava escrevendo programas pra Globo e recebendo uma grana preta por isso.

Caramba, um franguinho mal saído dos cueiros já tinha chegado lá e eu aqui, nessa vidinha mais ou menos, escrevendo pra vender Sonrisal, bacia acoplada e revisão de férias em 3 vezes sem juros.

E ele ficou tão importante que até saiu do Facebook por uns tempos, pra voltar depois, certamente, a pedido dos fãs. Global faz essas coisas, né?

Eu aqui, duelando entre escrever janelas de oferta e áudio visuais para o Prêmio ORM ACP. E assim a vida foi seguindo.

Mas hoje acabou essa pobreza! Hoje a Globo reconheceu o meu talento e depositou R$ 50,00 na minha conta. Juro por Deus do Céu! Cinquenta babilacas globais!

E não precisei nem encarar temido o teste do sofá, tá?

Bastou eu postar um vídeo despretensioso num site de criação colaborativa, pra Globo se encantar com a criatividade do garotão aqui e decidir contribuir, apoiando a iniciativa com essa bolada toda que, se não vai curar as mazelas da minha conta bancaria, já curou a minha alma e vai ser suficiente para comprar dois charutos dominicanos pra eu baforar junto com o, agora, também colega Vlad, quando nos encontramos por aqui. Ou por lá, em Jacarépaguá!

Qual é o papo, Cesar Paes Barreto?

Entrevista para as redes sociais da 3D Produções e Entretenimento.

Uma pedra no meio do caminho

Sexta-feira passada, decorridos cinquenta anos, sete meses e dois dias do tempo regulamentar do meu jogo da vida, pela primeira vez eu soube o que é sofrer uma cirurgia. Aliás, naquele dia, não perdi apenas a virgindade cirúrgica. Foi a minha primeira vez também a tomar soro, dormir com anestesia geral e acordar em uma cama de hospital.
Sim, finalmente o chef Cesar conheceu o significado da tão propalada comida de hospital.
E tudo isso porque tinha uma pedra no caminho. Uma pedra na vesícula, atrapalhando o caminho da bile, tal e qual trabalhadores em greve atravancam o nosso vai e vem todo santo dia.
Minha vesícula grevou e não voltou a trabalhar nem por decreto.
E, como não voltou a trabalhar, teve que ser demitida, por justa causa, para que não contaminasse com o mau exemplo os colegas de labuta, que trabalham nos órgãos vizinhos. Resumindo, o mal tinha que ser cortado pela raiz, imediatamente, sem direito a recurso.
Mas, tudo começou um fim de semana antes, com uma orgia gastronômica de fazer inveja aos bacanais romanos. Vamos lá:
Na quinta, uma deliciosa chapa de mariscos grelhados. Sim, todos os que você imagina estavam lá, lindos e crocantes: da nobre lagosta ao plebeu mexilhão.
Na sexta, um amanteigado risoto de aspargos frescos com camarões grelhados no azeite.
No sábado, churrascão daqueles que se preza, muito bem ornado de colesterol e triglicerídeos pra não fazer feio em nenhum exame laboratorial.
E, finalmente, pra fechar com chave de ouro o glorioso festival adiposo, no almoço de domingo, o chef Cesar preparou a improvável e inenarrável combinação de polvo grelhado, bacalhau na chapa e linguiça toscana recheada com queijo provolone, embebidos em molho de curry com mega-power pimenta verde no leite de coco.
Gostou ou já deu enjoo só de ler?
Tá bom: vai, pega um Dramin e um Luftal aí que eu espero antes de continuar.
Obviamente que depois de tudo isso a coitada da vesícula, tão maltratada pelos meus desejos de gordo, iria pedir pira paz não quero mais, no mais alto e bom som que ela pudesse.
E, na madrugada de domingo pra segunda, deu-se a rebordorsa: vesícula, fígado, estômago, pâncreas e intestinos, unidos, bradavam que jamais seriam vencidos.
Foi nessa hora que soube o que o grande Golias sentiu ao ser derrubado pela pedrinha do pequeno David. Uma pedrinha de pouco mais de um centímetro de diâmetro nocauteu, sem dó nem piedade, mais de noventa quilos de fofura acumulada, com tanta facilidade, que até a batizei de Chris Weidman.
Um pouco antes de cair de dor, delirando, até pensei ter escutado o Bruce Buffer gritar “It’s tiiiiimeeeee!!!!!”.
Se ouvi ou não de verdade, não sei. Mas que a hora era chegada, era.
E lá fui eu, rumo ao desconhecido, sabendo que, aquando abrisse os olhos depois do delicioso nocaute anestésico, teria uma vida inteiramente nova pela frente.
Adeus Claude Troisgros e seu magret de pato com foie gras.
Adeus Chuck Huges e sua costela na crosta sal grosso.
Bem-vinda Bela Gil e seu churrasquinho de melancia.
Não sei não, mas acho que vou sentir saudades da comida do hospital.

Dom Zico: da pegadinha ao jantar!

Sobre o Dom Zico, capaz do Ney Messias Jr. e o Gaspar Rocha Rocha lembrarem dessa. Nos idos de 1993 ou 1994, fui escalado pelo Walter Jr Carmo a representá-lo na inauguração da Rádio Nazaré (ou da antena da rádio, sei lá). Walter era Coordenador de Comunicação Social da PMB, Ney o coordenador adjunto e eu Diretor do Núcleo de Propaganda. Não sei se foi pegadinha de algum colega (né Gaspar!?) ou desatenção minha, mas, o fato é que cheguei lá na residencia do Arcebispo, na época, na BR, em frente à entrada do Lago Azul, pontualmente às 18h00. Lugar mais vazio do mundo. Ninguém lá! Me levaram então até Dom Zico que me recebeu com um sorriso esplendoroso no rosto, dizendo que o coquetel estava marcado para as 20h00, mas, já que eu estava lá, era seu convidado para jantar, antes do coquetel. Bom, convite de Arcebispo é algo que não se pode negar. Aceitei, esperando encontrar uma mesa farta e ricamente ornada. Dei com os burros n’água e, naquele momento, passei a admirar ainda mais aquele homem simples que emanava bondade em seu sorriso: em uma pequena mesa de madeira, quadrada, numa sala simples, Dom Zico dividiu comigo o seu jantar: um mamão, um copo de leite e algumas torradas. E dividiu muitas histórias também. Conversamos, eu e ele, durante essas duas horas, como se fossemos velhos conhecidos. Naquela noite, dormi feliz! Hoje, tenho absoluta certeza, será a vez dele.

A boa e velha Babilônia!

Quem se escandaliza com a novela é porque nunca leu Aluísio Azevedo, Shakespeare e outros clássicos da literatura nacional e universal baseados em traições, fratricídios, homosexualidade, entre outras coisinhas pouco amenas. Para quem se escandaliza, existe a opção de mudar de canal ou de desligar a televisão, né? Aí, vão poder assistir – e adorar – Game of Thrones, que tem tudo isso, em dobro, mas, como se passa na idade média e não tem a ver com a nossa realidade, não choca a nossa vidinha mais ou menos. Ora bolas: isso só prova que traição, fratricídio e homosexualidade existem desde que o mundo é mundo. Desde que Caim matou Abel. Desde que o imperador Adriano (o romano e não o carioca) dividia seu leito com o jovem Antínoo, para quem, aliás, ergueu três templos – Bitínia, Mantineia e Atenas – além de uma cidade inteira, Antinoópolis. Babilônia, como se vê, já existe, desde os tempos… da Babilônia. Sim, a vida imita a arte e arte imita a vida. Mas vida é vida e arte é arte! Não faço aqui um manifesto em favor do fratricídio, do assassinato, do aborto e nem do homosexualismo. Me manifesto, sim, a favor da liberdade criativa de escritores e romancistas. Me manifesto, sim, em favor do livre arbítrio, onde cada um pode decidir o que quer e o que não quer assistir na TV, no cinema, no teatro ou ler nos livros. Cada um é livre pra viver os amores que quer viver. Só acho que mundo é capaz de sobreviver a guerras, pestes e até a queda de asteróides. Mas morre um pouquinho sem boas histórias para serem contadas.

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